Berço da Nestlé nas Américas e mãe da cana que o Brasil planta: os fatos pouco contados de Araras
De uma fábrica que abastece o Nescafé do mundo a uma novela que distorceu a história da abolição na cidade — um levantamento de dados verificáveis em fontes primárias e institucionais, separando fato de lenda
Última atualização: 10/09/2026

ARARAS (SP) — Araras tem cara de cidade média do interior paulista, mas um levantamento de dados verificáveis em fontes primárias e institucionais mostra um alcance que raramente aparece: a cidade é berço da Nestlé nas Américas, matriz genética da cana mais plantada do Brasil e cenário real — bem diferente do que a ficção contou — de uma história de resistência à escravidão. A seguir, o que é documentado, com fonte, e o que é lenda repetida sem base.
A fábrica que abastece o Nescafé do mundo
A fábrica de Araras, inaugurada em 1921, foi a primeira unidade da Nestlé no Brasil e em toda a América Latina — um dado raramente explorado com números. Hoje o complexo produz cerca de 28,5 mil toneladas de Nescafé por ano, trabalha com mais de 110 SKUs ligados a café e exporta para aproximadamente 60 países.
Um detalhe pouco conhecido: a unidade de Araras fabrica todas as tampas e fundos de latas usados pela Nestlé no Brasil. Ou seja, praticamente toda lata de Nescau ou Nescafé consumida no país tem um componente físico feito em Araras.
A notícia mais recente é concreta: a Nestlé vai destinar cerca de R$ 1 bilhão até 2028 à modernização e ampliação da planta ararense, dentro de um ciclo de investimentos de R$ 7 bilhões no Brasil. O aporte inclui uma nova torre de extração — processo cuja estrutura permaneceu quase inalterada por mais de 60 anos —, automação industrial e inteligência artificial. A capacidade total sobe de 40 mil para 44 mil toneladas anuais, com expectativa de alta de 27% nas exportações de café solúvel em 2026.
Para dimensionar a presença industrial ao longo do tempo: em 2017, a produção de Nescafé solúvel e Nescau em Araras atingiu 130 mil toneladas. A cidade abriga também uma unidade da DPA (joint venture entre Nestlé e Fonterra) e um centro de distribuição, que juntos já empregaram mais de 2.100 pessoas. Em 2018, foi inaugurado o NQAC (Nestlé Quality Assurance Center), centro de tecnologia analítica com investimento de R$ 23 milhões.
A cana que o Brasil inteiro planta nasceu aqui
Este é provavelmente o dado mais subexplorado da cidade. O campus da UFSCar em Araras nasceu da Fazenda Santa Escolástica, antiga plantação de café comprada em 1953 pelo presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Ali se instalou o Planalsucar, programa nacional de melhoramento genético da cana criado em 1971.
As variedades desenvolvidas nesse programa recebem a sigla RB (de "República do Brasil") e hoje dominam os canaviais nacionais: segundo o Censo Varietal 2023/24 do Centro de Cana do IAC, as RB representam 50,4% de toda a área cultivada no Centro-Sul, contra 34,4% das variedades SP. Em levantamento mais recente, as RB respondem por 56% da área total de cana do Brasil.
O caso mais impressionante é a RB867515, que já ocupou mais de 2,5 milhões de hectares no Brasil — a variedade de cana mais plantada do país e provavelmente do mundo. Em conjunto, Planalsucar e sua sucessora, a RIDESA, produziram 134 variedades RB em 55 anos de pesquisa. O programa de melhoramento genético paulista (PMGCA/UFSCar) tem sede justamente em Araras, com estação experimental vinculada ao Centro de Ciências Agrárias.
A virada: quando o Planalsucar foi extinto em 1990 pela Lei 8.029/90, a UFSCar incorporou suas unidades paulistas em 1991, dando origem ao Centro de Ciências Agrárias (CCA). O campus universitário de Araras é, portanto, herdeiro direto de um programa estatal de melhoramento genético que reprogramou a base biológica do etanol brasileiro.
Um campus federal com 230 hectares — e o primeiro doutorado, em 2024
O CCA/UFSCar Araras foi fundado em 1991 e ocupa 230 hectares. O curso de Engenharia Agronômica foi implantado em 1993; Biotecnologia e o mestrado em Agroecologia e Desenvolvimento Rural chegaram em 2006; e quatro novas graduações — Agroecologia e licenciaturas em Física, Ciências Biológicas e Química — surgiram em 2010, via programa federal Reuni.
Em 2024, o campus teve seu primeiro curso de doutorado aprovado pela Capes: o doutorado em Agricultura e Ambiente. A história por trás é de perseverança institucional — a primeira proposta foi enviada em 2016 e indeferida, uma segunda em 2022 também foi negada, com elogios da banca, e só a terceira, submetida em 2023, foi aprovada.
Quando Araras foi ponta de linha
A estação de Araras foi inaugurada em 10 de abril de 1877 pela Companhia Paulista, como ponta de linha do prolongamento do tronco — antes de Leme (setembro de 1877), Pirassununga (1878) e Porto Ferreira (1880). Os trilhos chegaram três meses antes da inauguração da estação.
O detalhe que mais rende é um retrato demográfico duro, registrado em 1875 por M. E. de Azevedo Marques: a então Nossa Senhora do Patrocínio das Araras tinha 5.495 habitantes, dos quais 2.065 eram escravizados — cerca de 38% da população — e contava apenas com "duas cadeiras de instrucção publica para ambos os sexos". O mesmo registro atribui o rápido crescimento à qualidade das terras para o café.
Em 18 de fevereiro de 1977, o trem de passageiros passou por Araras pela última vez — exatamente 100 anos de serviço de passageiros, de 1877 a 1977. O prédio definitivo da estação substituiu um galpão de madeira em 1882 e foi reformado várias vezes, a última nos anos 1920, quando ganhou a forma que tem até hoje.
Sinhá Moça: o que é história e o que é novela
Esta é a pauta de checagem mais valiosa do levantamento, porque separa fato de folclore. É sólido que o romance Sinhá Moça, de Maria Dezonne Pacheco Fernandes — adaptado pela TV Globo em novelas de 1986 e 2006 — tem inspiração na região de Araras. A escritora viveu muitos anos na cidade e teve contato com a história do movimento abolicionista local, segundo o historiador ararense Wenilton Daltro, em reportagem da EPTV/Globo. A trama se passa em 1886, na fictícia Araruna.
A figura histórica por trás é Lourenço Dias (1840–1898), que herdou a Fazenda São Thomé em 1886 e chegou a abrigar mais de 400 fugitivos da escravidão — uma espécie atípica de quilombo liderado por um homem branco. Morreu em 18 de maio de 1898, aos 58 anos, e tem um busto na Praça Barão de Araras. Historiadores locais registram a fazenda como o "palmares ararense" e preservaram até um estribilho cantado por crianças da época: "Seu Lourenço Dias, quero ver balancear só".
É aqui que mora o mito, e vale a pena explicar com cuidado. A versão oficial da prefeitura afirma que a abolição em Araras ocorreu em 8 de abril de 1888, um mês e cinco dias antes da Lei Áurea. Mas pesquisa histórica local mostra que a ideia de que "Araras foi a primeira cidade do Brasil a libertar seus escravos" nasceu de uma declaração da própria escritora, segundo a qual o barão de Araras teria libertado os cativos de sua Fazenda São Joaquim em 4 de abril de 1888. Essa noção é equivocada: o barão de Grão-Mogol já havia dado liberdade total aos seus escravizados em 5 de fevereiro de 1888, com 93 dias de antecipação à Lei Áurea. O mesmo levantamento adverte que a cena novelesca de Lourenço Dias abrindo senzalas à noite não tem confirmação documental — é afirmação de historiadores locais e da autora do romance, não um registro de época.
O barão fundador e seu contraponto documentado
Bento de Lacerda Guimarães (Itatiba, 1820 — 8 de junho de 1897), primeiro e único barão de Araras, foi o fundador do núcleo urbano: doou, junto com o irmão José Lacerda Guimarães (2º barão de Arari), o terreno para a capela em 19 de maio de 1865 — hoje a Basílica Menor de Nossa Senhora do Patrocínio.
Há um contraponto documentado à sua biografia: em 26 de outubro de 1871, ele assinou ratificação em cartório assegurando liberdade aos filhos de suas escravizadas nascidos a partir daquele ano. Existe ainda um registro folclórico — tratado explicitamente como tradição oral, não como fato — de que os corpos de barões considerados cruéis teriam desaparecido e sido substituídos por troncos de bananeira no caixão, um motivo comum em várias regiões do Brasil.
Uma basílica com decreto assinado no Vaticano
Poucos portais municipais reproduzem esse documento. Em 15 de agosto de 2010, dia da padroeira, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio foi elevada a Basílica Menor. O decreto foi expedido pela Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos em 3 de julho de 2010, em resposta a carta de 1º de maio de 2010 do bispo de Limeira, Dom Vilson Dias de Oliveira, e por faculdades atribuídas pelo papa Bento XVI. Foi assinado pelo arcebispo secretário José Agostinho di Noia. O título é concedido a templos que se destacam pelo zelo litúrgico e pastoral, e liga a igreja diretamente a Roma.
| Marco | Data |
|---|---|
| Doação do terreno da capela pelo Barão | 19 de maio de 1865 |
| Emancipação política (elevação a vila, Lei Provincial nº 29) | 24 de março de 1871 |
| Chegada da ferrovia (estação inaugurada) | 10 de abril de 1877 |
| Elevação de vila a cidade (Lei Provincial nº 27) | 2 de abril de 1879 |
| Primeira fábrica Nestlé do Brasil e da América Latina | 1921 |
| Compra da Fazenda Santa Lúcia por Jerônymo Ometto | 1940 |
| Fundação da Usina Santa Lúcia | maio de 1947 |
| Fazenda Santa Escolástica comprada pelo IAA | 1953 |
| Inauguração do Lago Municipal | 22 de dezembro de 1963 |
| Último trem de passageiros | 18 de fevereiro de 1977 |
| Criação do campus UFSCar Araras | 1991 |
| Elevação a Basílica Menor | 15 de agosto de 2010 |
| Primeiro doutorado aprovado no CCA | 2024 |
O prefeito mais jovem do estado e o brejo que virou cartão-postal
Uma história humana bem documentada. Milton Severino, nascido em Araras em 21 de novembro de 1931, professor de História e Geografia e radialista, foi eleito em 1960 o prefeito mais jovem do estado de São Paulo, aos 29 anos, com apoio da juventude local. Na primeira gestão, transformou o brejo onde brincava quando criança no Lago Municipal, inaugurado em 22 de dezembro de 1963.
O arco completo da trajetória tem reviravolta: em 1970, foi afastado do governo durante o segundo mandato por ação da ditadura militar, mas manteve os direitos políticos preservados, e voltou a ser eleito prefeito pela terceira vez em 1983. O parque leva o nome oficial de Fábio da Silva Prado e ocupa cerca de 89 mil m² na região central.
Do zoológico abandonado ao centro de reabilitação de araras
O zoológico do parque foi desativado na década de 1990 por determinação do Ibama, e a área ficou abandonada por décadas. A revitalização recente transformou o espaço em área de preservação, com fonte interativa, jardim sensorial para deficientes visuais, lago ornamental e o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres "Pró-Arara". O parque abre diariamente das 6h às 22h, com visitação gratuita e três entradas.
A simetria é perfeita: o projeto Pró-Arara busca recuperar justamente a arara-canindé (Ara ararauna) e a arara-vermelha (Ara chloropterus), espécies que povoavam a paisagem local na época da fundação e deram nome ao município. As duas primeiras aves recebidas foram araras-canindés encaminhadas pela Polícia Militar Ambiental de Ribeirão Preto. Depois, o centro passou a abrigar uma arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) — espécie natural da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal, classificada como vulnerável pela IUCN —, encontrada na divisa entre Araras e Conchal, com histórico desconhecido.
A rede Ometto: do etanol à Cosan
É uma rede empresarial que raramente é mapeada. Jerônymo Ometto, filho dos imigrantes vênetos Antônio Ometto e Caterina Biasio Ometto — chegados ao Brasil em 1895 —, comprou parte da Fazenda São Joaquim em Araras em 1940 e transferiu para lá o registro "Santa Lúcia". Produzia aguardente em 1941 e, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra, passou a fazer álcool carburante a pedido do governo brasileiro. A destilaria chegou a 6.000 litros de etanol por dia e, em 1947, com a primeira moenda Dedini de 20x36 polegadas, nasceu a Usina Santa Lúcia — hoje na quarta geração da família.
O nó que liga tudo: Hermínio Ometto, bisavô de Rubens Ometto — fundador e controlador da Cosan —, fundou em 1953 a Sociedade Esportiva e Recreativa Usina São João, que depois se tornaria o União São João Esporte Clube, cujo estádio leva o nome dele. Foi esse clube que revelou o lateral Roberto Carlos, hoje pentacampeão mundial — como o Guia Araras já contou em outra reportagem —, e que em 1992 teve o primeiro jogador convocado à Seleção pré-olímpica, vendido ao Palmeiras no ano seguinte.
O salto de IDH que ninguém noticiou direito
O IDHM de Araras passou de 0,573 em 1991 para 0,710 em 2000 — alta de 23,91% — e depois para 0,781 em 2010, crescimento de 10%. O município subiu 26 posições no ranking nacional, alcançando a 119ª colocação entre 5.565 municípios, contra a 145ª em 2000. Entre os 645 municípios paulistas, ficava na 62ª posição.
| Componente | Índice |
|---|---|
| Longevidade | 0,859 |
| Renda | 0,763 |
| Educação | 0,728 |
| IDHM geral | 0,781 |
A composição mostra onde está a força e a fraqueza: longevidade é o componente mais alto, e educação, o mais atrasado — pauta natural para reportagem investigativa local. Fontes independentes confirmam o valor arredondado de 0,78, na faixa de desenvolvimento humano alto.
Patrimônio construído, com data checada
A Casa da Cultura Emílio Silvestre Wolff, projetada pelo arquiteto francês Victor Dubugras, foi construída em 1898 e já abrigou o Fórum Municipal, a Cadeia Pública e a Câmara Legislativa, até 1916 — hoje oferece aulas de instrumentos, coral e fotografia. A Casa da Memória Pedro Pessotto Filho data de 1926. Ao lado fica o Casarão do Artesão, erguido no início do século XIX para hospedar imigrantes italianos que chegavam para trabalhar nas fazendas de café.
O parque industrial: seis distritos e multinacionais
Araras tem ao menos seis distritos industriais, quatro deles nomeados: Professor Jair Della Colleta (I), Guilherme Buck Junior (II), Jacob Maretto (III) e o Distrito Industrial VI, na Avenida Maria Virginia Pacifico Homem Ometto. Entre as maiores indústrias de manufatura por faturamento aparecem a Tenneco Sistemas Automotivos e a Sonoco do Brasil — café solúvel global, autopeças, embalagens e sucroenergético convivendo num município de porte médio.
Perguntas frequentes
Araras foi mesmo a primeira fábrica da Nestlé no Brasil?
Sim. A fábrica inaugurada em Araras em 1921 foi a primeira unidade da Nestlé no Brasil e em toda a América Latina. A unidade também fabrica todas as tampas e fundos de latas usados pela Nestlé no país.
O que é a cana RB e por que ela é ligada a Araras?
RB são variedades de cana desenvolvidas pelo Planalsucar, programa de melhoramento genético que funcionou no campus de Araras (hoje CCA/UFSCar) a partir de 1971. A RB867515, a mais famosa, já ocupou mais de 2,5 milhões de hectares e é a variedade mais plantada do Brasil.
É verdade que Araras foi a primeira cidade do Brasil a abolir a escravidão?
Não há confirmação documental disso. A ideia circulou a partir de uma declaração da escritora de Sinhá Moça sobre uma libertação em abril de 1888, mas o barão de Grão-Mogol já havia libertado seus escravizados em fevereiro de 1888, antes de Araras.
Quem foi Lourenço Dias?
Um fazendeiro de Araras que, a partir de 1886, chegou a abrigar mais de 400 fugitivos da escravidão em sua Fazenda São Thomé — episódio que inspirou parte da história de Sinhá Moça. Morreu em 1898 e tem um busto na Praça Barão de Araras.
Quando o campus da UFSCar em Araras foi criado?
Em 1991, a partir da incorporação das unidades paulistas do extinto Planalsucar. Ocupa 230 hectares e teve seu primeiro doutorado — em Agricultura e Ambiente — aprovado pela Capes em 2024.
Qual a relação entre a família Ometto e a Cosan?
Hermínio Ometto, que fundou em 1953 o clube que originou o União São João Esporte Clube de Araras, é bisavô de Rubens Ometto, fundador e controlador da Cosan. A Usina Santa Lúcia, outro braço da família em Araras, está hoje na quarta geração.
Fontes
- Prefeitura Municipal de Araras
- Câmara Municipal de Araras
- UFSCar — Centro de Ciências Agrárias (Araras)
- Centro de Cana do IAC — Censo Varietal 2023/24
- Nestlé Brasil (imprensa institucional)
- Basílica Menor de Nossa Senhora do Patrocínio
- Estações Ferroviárias do Brasil
- EPTV/Globo — reportagem sobre Sinhá Moça e o historiador Wenilton Daltro
- IBGE / Atlas do Desenvolvimento Humano (PNUD)
- Usina Santa Lúcia
Reportagem produzida a partir de fontes primárias e institucionais (prefeitura, UFSCar, imprensa econômica, registros ferroviários e sites corporativos), separando explicitamente o que é documentado do que é tradição oral ou repetição sem fonte primária confirmada.
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